Do Brasil a Vicenza, na trilha dos antepassados
Moacir Pigozzo chegou à cidade há duas semanas, convencido de que estava em busca de trabalho, como lhe haviam garantido no Brasil, antes de partir. Ele tem 31 anos, é casado com Cristiane e tem uma filha chamada Manuela.
"Ele reside em Caxias do Sul, uma cidade que recebeu muitos imigrantes italianos. Na região da serra gaúcha, seu bisavô trabalhou como agricultor e enfrentou grandes dificuldades para conquistar e manter uma propriedade rural no município de Antônio Prado."
"Com muito orgulho, o jovem brasileiro contou que seu bisavô, vindo da região do Vêneto, na Itália, cultivava alimentos para a subsistência da família e também vendia o excedente da produção. Ele destacou o trabalho árduo do bisavô desde sua chegada ao Brasil."
Moacir deixou a família confiante de que suas origens italianas e sua especialização técnica, programador de torno CNC, teriam aberto as portas para uma das muitas indústrias do rico Nordeste.
E de absoluta boa-fé, mas sem levar em conta a burocracia italiana.
Ele fala um dialeto forte, entende a língua veneziana melhor do que o italiano e é difícil duvidar de suas origens, mas ele não pode provar que é descendente de imigrantes.
Ele apresenta um atestado de boa conduta, uma espécie de documento emitido pelas autoridades brasileiras que atesta sua completa ausência de antecedentes criminais.
Seu bisavô, Santo Pigosso, emigrou para o Brasil há muitos anos, de quem se sabe apenas a data de nascimento: 13 de abril de 1865.
E aqui surgem os problemas, pois não se sabe o país de origem ou o município onde foi registrado.
E não é só isso, até mesmo quanto ao sobrenome há reservas; naquela época, muitos dos emigrantes eram analfabetos e falavam apenas o dialeto.
O funcionário brasileiro que registrou Santo Pigosso pode ter entendido mal. Spigozzo, Pigozzo, Spigosso, podem ser todos os sobrenomes originais do ancestral de Moacir. Para falar a verdade, essa leveza na escrita dos sobrenomes no país sul-americano não foi perdida.
O sobrenome do pai de Moacir era Pigosso, mas quem sabe por que, ao registrar o filho, apareceu um "s" no início do sobrenome.
Sem a precisão dos dados, ou seja, o sobrenome exato e o município de residência do seu antepassado, Moacir não pode acionar o procedimento reservado aos descendentes de emigrantes e, portanto, deverá seguir os trâmites burocráticos normais e demorados para trabalhar na Itália.
Após dias de tentativas frustradas, a decepção tomou conta, e também a saudade da esposa e da filha, deixadas do outro lado do oceano.
"Tenho meu trabalho no Brasil", diz Moacir em um dialeto muito semelhante ao de Vicenza. "Vim para a Itália para encontrar trabalho e me estabelecer aqui com minha família."
No Brasil, ele ganha cerca de 400 dólares brutos por mês, não vive mal, mas aqui na Itália sua vida certamente pode mudar para melhor.
«Meu pai dizia que meu antepassado tinha uma propriedade e vivia em áreas onde havia cultivo de vinhas, mas ele também nunca soube o nome da cidade natal de Santo Pigosso.»
No escritório de empregos de Vicenza, garantem que sua especialização é muito procurada, que não há problemas para trabalhar, mas é preciso comprovar a origem italiana, o dialeto inconfundivelmente local não é suficiente para atestar o passado de sua família.
Moacir provavelmente não está mais na Itália, sua passagem aérea expirou anteontem e não sabemos se ele conseguiu os 200 dólares necessários para adiar sua partida por um mês.
Mas esse dinheiro nunca é demais para ele. A passagem aérea já havia custado 868 dólares.
Moacir tentará enviar cartas a todos os municípios da região de Vicenza, apenas com os dados de que dispõe, na esperança de, a partir dos arquivos, conseguir rastrear aquele Sante Pigosso (ou Pigozzo ou Spigozzo) que emigrou para a América do Sul no final do século XIX.
Enquanto isso, do Brasil, Moacir aguardará o desenrolar da situação, na esperança de poder retornar ao país de seus ancestrais.